Afinal de contas, Harry pode voltar no tempo ou não? De acordo com a física formal, NÃO.
Por uma perspectiva puramente científica, podemos estudar a questão do tempo por duas perspectivas diferentes: uma newtoniana e outra relativística. Newton entendia o tempo como um fluxo, um eterno vir a ser. O tempo, na hipótese de Newton, flui a nossa revelia e sua medida não é relativizável, ou seja, independe de quem vê.
Por outro lado, de acordo com a Teoria da Relatividade Geral, o tempo é uma dimensão, tal como as três dimensões espaciais conhecidas por nós: largura, altura e profundidade. Na hipótese de Einstein, o tempo não flui. Ele simplesmente é. Não é fácil imaginar. Na verdade acho dificílimo, mas é como se o tempo fosse um bloco dimensional. O tempo não flui – somos nós que fluímos no tempo, pois ele já está posto para nós.
A questão é que qualquer hipótese usada para explicar a essência da viagem no tempo esbarra em muitos paradoxos complexos. Imagine que Harry regressasse no tempo e jogasse uma pedrinha na cabeça de Hermione, fazendo-a desmaiar. Eis o primeiro paradoxo: É ela quem aciona o “vira-tempo”. Se Harry a atinge antes que ela possa usar a bruxaria - o que impediria a viagem temporal -, então como ele poderia ter voltado e a atingido se ele ainda não voltou?
Outra questão problemática situa-se em torno da Entropia, conceito originado da 2ª Lei da Termodinâmica (vide postagem sobre SANDMAN). A Entropia mede a tendência que um sistema possui em inutilizar a energia. Dito de maneira romanceada, a Entropia é a guardiã do tempo, pois é ela quem orienta a seta da eternidade, obrigando a matéria e a energia ao imperativo de uma eterna mutação. Se Harry voltasse no tempo ele estaria destroçando a lei da Entropia, pois o jovem bruxo é feito de matéria e energia que, por sua vez, tende a degradação. Certo, mas o que impede Harry de continuar envelhecendo, mesmo regressando no tempo? Nada. A questão é que teríamos dois bruxos no mesmo tempo. Se Harry continuasse no passado ele veria a si próprio regressando várias e várias vezes. A natureza estaria criando e recriando matéria e energia no passado. E ainda pior. Recriando consciências que, probabilisticamente, poderiam interagir. Se essa interação forçasse o Harry do passado a reavaliar suas ações, em decorrência de ter encontrado o Harry do futuro, então o bruxo estaria mudando a si próprio, o que poderia – em princípio – fazer Harry desistir de voltar no tempo. Mas se ele não viajará mais no tempo, por ter se assustado com o Harry que veio do futuro, então como ele regressou? Retornamos ao mesmo paradoxo.
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| Cena do filme Harry Potter e o prisioneiro de Azkaban |
Seja como for, o barato do tempo é que ele nos impõe algo de profundo: somos responsáveis por nossas escolhas. É somente diante da ameaça de não ter mais tempo é que nos impulsionamos diante da vida, nutrindo nossas existências com alegrias, emoções, experiências, vivências, dores, conquistas e toda sorte de coisas.
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| Cena do filme O Senhor dos Anéis: a sociedade do anel. No filme, o diálogo ocorre nas minas de Mória, enquanto que no livro, o diálogo acontece no Condado. |
Isso me fez lembrar de Gandalf, personagem de Tolkien, em O Senhor dos Anéis. Em certa parte do livro, o velho mago reflete com Frodo sobre a relação do tempo com nossas escolhas. É mais ou menos assim:
— Gostaria que isso não tivesse acontecido na minha época – disse Frodo.
— Eu também – disse Gandalf. Como todos os que vivem nesses tempos. Mas a decisão não é nossa. Tudo o que temos de decidir é o que fazer com o tempo que nos é dado.
Acho interessante esse diálogo, pois seu conteúdo resgata muito das filosofias existencialistas da modernidade. Remete-nos ao fato de que somos condenados a fazer escolhas. E essa não é uma escolha.
Ainda assim, podemos regressar no tempo, por meio da memória. Lembrar nossas escolhas passadas, rir, chorar, aprender com elas. Acho razoável pensar assim.
Acabou meu tempo.
Luciano Simões